segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Para o meu pai...

De forma geral, os homens não sabem o que é amor, é um sentimento que lhes é totalmente estranho.
Conhecem o desejo, o desejo sexual bruto e a competição entre machos; e depois, muito mais tarde, já casados, chegam, chegavam antigamente, a sentir um certo reconhecimento pela companheira quando ela lhe dava filhos, tinha mantido bem a casa e era boa cozinheira e boa amante- então chegavam a ter prazer por dormir na mesma cama. Não era talvez o que as mulheres desejavam, talvez houvesse aí um mal- entendido, mas era um sentimento que podia ser muito forte- e mesmo quando eles sentiam excitação, aliás cada vez mais fraca, por esta ou aquela mulher, já não conseguiam literalmente viver sem a mulher e, se acontecia ela morrer, eles desatavam a beber e acabavam rapidamente, em geral uns meses bastavam. Os filhos, esses, representavam a transmissão de uma condição, de regras e de um património. Era evidentemente o que acontecia nas classes feudais, mas igualmente com os comerciantes, camponeses, artesãos, de forma geral com todos os grupos da sociedade. Hoje, nada disso existe.
As pessoas são assalariadas, locatárias, não têm nada para deixar aos filhos. não têm nada para lhes ensinar, nem sequer sabem o que poderão vir a fazer; as regras que conheceram não serão de todo aplicáveis a eles, porque eles viverão num mundo completamente diferente. Aceitar a ideologia da mudança permanente significa aceitar que a vida de um homem está reduzida estritamente à sua existência individual e que as gerações passadas e futuras não têm, aos seus olhos, nenhuma importância.
É assim que nós vivemos, e ter um filho, hoje, para um homem, já não faz qualquer sentido. O caso das mulheres é diferente, porque eles continuam a sentir necessidade de terem um ser que amem- o que não é, nem nunca foi, o caso dos homens. É um disparate acreditar que os homens também têm necessidade de acarinhar e de brincar com os filhos, de lhes fazer festinhas. Por mais que no-lo digam, é um disparate. Depois de nos termos divorciado e de o quadro familiar se ter desfeito, as relações com os filhos perdem sentido. Um filho é uma armadilha que se fechou, é o inimigo que temos de continuar a manter que vai acabar por nos enterrar.
Michel Houllebecq
'As Partículas Elementares'
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